Dentre as várias competências que se sobressaem do currículo de Ivane Fávero, secretária de Turismo de Bento Gonçalves –
RS uma é a sua atuação no planejamento e na gestão pública por mais de
15 anos na região da Serra Gaúcha. Além de professora de cursos
superiores de Turismo há mais de 11 anos, Ivane é autora do livro
Políticas do Turismo – Planejamento na Região da Uva e Vinho , pela
EDUCS (Universidade de Caxias do Sul). Nesta entrevista, concedida ao
jornalista Paulo Atzingen, editor do DIÁRIO, Ivane fala sobre vários temas inerentes ao turismo da capital nacional do vinho. Acompanhe:
DIÁRIO – A rota Caminhos de
Pedra experimenta uma espécie de pressão da indústria imobiliária. Como
essa questão está sendo tratada?
IVANE FÁVERO – Todo destino turístico quando atinge um
grau de desenvolvimento elevado e começa a valorizar uma área que antes
era uma área extremamente desvalorizada e até empobrecida - e através
do turismo começa a ser valorizada - atrai também o olhar da especulação
imobiliária. Para evitar que esse avanço de construções que não estão
inerentemente ligadas à cultura local, à identidade local e também para
que a gente possa preservar as paisagens desses locais turísticos, se
faz necessário a criação de leis, então estamos estudando mudanças do
próprio plano diretor-municipal e também o tombamento daquele próprio
território pelo Instituto Patrimônio Histórico Estadual, que já
visualizou a necessidade da proteção através de leis, que é o que
aconteceu também em vários países da Europa.
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"Acho
que o que nos falta não é mais qualificar a estrutura local, a oferta
local e sim a promoção desse destino e fortalecimento da identidade da
Serra Gaúcha, de Bento Gonçalves” |
DIÁRIO – O enoturismo é um
segmento extremamente original e é um produto que vocês têm aqui com
autenticidade. Vocês estão transformando isso num produto turístico
também. O que falta para que esse segmento tenha uma repercussão maior, a
nível nacional e internacional?
IVANE FÁVERO – Desde 1875, quando começa a imigração
italiana para cá, nós tivemos o início do desenvolvimento da
Vitivinicultura na região. A partir dela, em torno de 20 anos, começa a
abertura dessas vinícolas e com o tempo essas vinícolas também passaram a
entender a importância do enoturismo, inclusive como estratégia de
marketing e promoção e valorização do vinho nacional. O próprio vinho
nacional teve a dificuldade de se consolidar e ainda está nessa luta
diária para se consolidar como produto de qualidade. Mas todas as
pessoas que chegam aqui ficam entusiasmadas com o que vêem. Acho que o
que nos falta não é mais qualificar a estrutura local, a oferta local e
sim a promoção desse destino e fortalecimento da identidade da Serra
Gaúcha, de Bento Gonçalves, e região vinícola como destino enoturístico
do Brasil. Nós lutamos com a própria Embratur, com o Governo Federal,
com o Governo Estadual para que no material publicitário do Brasil ou do
Rio Grande do Sul se inclua o enoturismo. Nunca foi sequer citada a
palavra enoturismo em nenhum material de produção internacional, ao
passo que nós vemos os países vizinhos, algumas vezes, com menor
estrutura que nós divulgando amplamente o enoturismo como produto
turístico. Obviamente, o Brasil pela diversidade cultural e etc, sempre
reforçou muito mais o perfil da praia, sol, alegria, futebol, a Selva
Amazônica, tudo bem, mas nós precisamos mostrar que existe um sul e que
temos um outro produto sim, e o próprio brasileiro precisa perceber que
não precisa atravessar a fronteira para visitar vinícolas charmosas,
restaurantes aconchegantes, hotéis maravilhosos, enfim, que isso pode
ser usufruído aqui no sul do Brasil.
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Empreendimentos hoteleiros, como o Spa do Vinho, é um exemplo do diversificação da economia proveniente do plantio da uva |
DIÁRIO – A senhora foi
secretária de outros municípios aqui no Rio Grande do Sul. Como vê a
ascensão da classe média consumindo o turismo e quais são os números de
Bento Gonçalves de uns anos para cá?
IVANE FÁVERO – Fantástico. Acho que esse é o fenômeno
que ajuda o Brasil hoje a se manter e manter sua economia, então a
pirâmide se transformou num losango e hoje a gente tem a classe média
obviamente chegando também a este destino, mas também ampliamos muito o
volume de visitantes da classe A em função de empreendimentos muito
qualificados . Nós tínhamos em torno de 600 mil turistas em 2009 e
projetamos uma meta para atingir 1 milhão de turistas em 2014. A nossa
luta hoje é realmente para ampliar a permanência, sensibilizando as
operadoras e atingindo até mesmo o público final para tudo o que Bento
tem a oferecer. É uma cidade onde você pode ficar sete dias com uma
programação extremamente interessante e diversificada e ainda mais se
incluirmos os municípios de entorno, já que Bento é um dos 65 destinos
indutores e obviamente tem, também, essa responsabilidade, em promover
os destinos de entorno.
DIÁRIO – Os hotéis de rede têm pouca presença em Bento. Isso se deve a alguma reserva de mercado ou à demanda?
IVANE FÁVERO – Acho que isso se deve ao perfil local
que é muito empreendedor e todo momento que surge uma demanda é o
próprio investidor local o primeiro a perceber e a investir; então todos
os nossos empreendimentos são frutos dos investidores locais e não falo
só dos hotéis, mas das vinícolas, dos restaurantes, enfim, dos
atrativos turísticos como um todo. Agora nós temos uma rede chegando, e
já se instalou que é a Marriott, o que para nós foi muito interessante
porque trata-se de uma rede com altíssimo nível, com qualidade
reconhecida internacionalmente e que chega a esse destino porque percebe
a qualidade e a potencialidade dele, fortalecendo-o ainda mais. Mas
ainda assim os investidores são locais, mas isso não se deve a uma
reserva de mercado, não. É realmente a essa percepção e ao
empreendedorismo local.
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“Temos
uma rede internacional se instalando, a Marriott; por ser uma rede com
altíssimo nível, com qualidade reconhecida internacionalmente demonstra a
qualidade e a potencialidade deste destino” |
DIÁRIO – Como é que foi essa
mudança de comportamento do turista, de uns anos para cá? Ele trocou o
turismo rodoviário pelo aéreo e agora pelo do carro próprio. Como que
isso acontece por aqui?
IVANE FÁVERO – Isso tem toda a relação com a mudança
do poder aquisitivo do brasileiro e a entrada de empresas aéreas de
baixo custo, baixa tarifa que mudou
todo o perfil, então são essas duas forças. Hoje é muito fácil viajar
de avião pelo custo, mas também pela facilidade que as pessoas encontram
em adquirir uma passagem aérea, então sim, é uma mudança comportamental
que necessita ainda de todo um avanço na estrutura aeroportuária, de
linhas e de uma qualificação que não pode ser perdida nessa relação de
volume x preço; ela deve ser mantida de forma inversa. O turista que
chega aqui não necessariamente vem de avião, nós temos muito turismo
rodoviário chegando e o turista particular que vem com o próprio carro e
não só aqui do Rio Grande do Sul, que é o nosso principal emissor, mas
até mesmo de São Paulo, que chega aqui de carro. O turista contemporâneo
demonstra uma vontade crescente de ter sua autonomia e viajar com seu
carro próprio, então nós trabalhamos com todas essas frentes. O nosso
maior número de turistas é de turismo particular e não em grupo de
agências.
Edição e Redação do DT